agrupamento independente de pesquisa cênica

Composto atualmente pelos artistas pesquisadores Clóvis Domingos, Flávia Fantini, Frederico Caiafa, Idelino Junior, Joyce Malta, Leandro Acácio, Lissandra Guimarães, Matheus Silva, Nina Caetano, Nildo Monteiro, Sabrina Batista Andrade, Sabrina Biê e Wagner Alves de Souza, o Obscena funciona como uma rede colaborativa de criação e investigação teórico-prática sobre a cena contemporânea que visa instigar a troca, a provocação e a experimentação artísticas. Também participam dessa rede colaborativa obscênica os artistas Admar Fernandes, Clarissa Alcantara, Erica Vilhena e Saulo Salomão.

São eixos norteadores do agrupamento independente de pesquisa cênica, o work in process, os procedimentos de ocupação/intervenção em espaços públicos e urbanos e os procedimentos de corpo-instalação, além da investigação de uma ação não representacional a partir do estudo da performatividade e do pensamento obra dos artistas plásticos Artur Barrio, Hélio Oiticica e Lygia Clark.

Atualmente, o Obscena desenvolve o projeto Corpos Estranhos: espaços de resistência, que propõe tanto trocas virtuais e experimentação de práticas artísticas junto a outros coletivos de arte, como ainda a investigação teórica e prática de experimentos performativos no corpo da cidade. Os encontros coletivos se dão às quintas-feiras, de 15 às 19 horas, na Gruta! espaço cultural gerido pelo coletivo Casa de Passagem.

A criação deste espaço virtual possibilita divulgar a produção teórico-prática dos artistas pesquisadores, assim como fomentar discussões sobre a criação teatral contemporânea e a expansão da rede colaborativa obscênica por meio de trocas com outros artistas, órgãos e movimentos sociais de interesse.

sábado, outubro 04, 2014

Nessa cidade tinha uma praça


Nessa cidade tinha uma praça

(poema final apresentado no último Sonoridades Obscênicas na festa de encerramento do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto)

Nessa cidade tinha um lugar
que se chamava praça.
Nela se entrava de graça
e podia se festejar.

Mas hoje é um lugar murado
parece uma praça-curral!
O espaço público se tornou privado
e tem gente que acha normal.

Que saudades de uma Belo Horizonte plural!

Hoje: cidade espetacular
Patrulhamento militar
quem é que pode entrar?
quem é que pode entrar?

Em nome de uma falsa proteção
só reforçam a exclusão!
Aqui não entram vagabundo, pobre e favelado
e nos transformam em gado
números
corpos vigiados!

A história da segregação
não é uma cena curta
há muito tempo se estupra
nosso direito de cidadão!

Imagem de Tamás Bodolay


Mas nessa paisagem ainda tem um LUTAR
feito de força, coragem e raça
que todo dia reconstrói uma praça
de uma cidade que a gente quer habitar!

Cidade possível!
Cidade potente
cidade com gente
que não se cansa de gritar:

CHEGA DE MUROS, GRADES E GRUAS!
VAMOS BOTAR NOSSO BLOCO NA RUA!

quarta-feira, setembro 24, 2014

Jogo dos sete erros: Apontamentos perfográficos a partir de “Geografia Inútil” do ERRO grupo


(Experiência vivida no dia 08/09/14 na Praça da Alfândega em Florianópolis/SC. O ERRO grupo tem como integrantes: Luana Raiter, Luiz Henrique Cudo, Pedro Bennaton e Sarah Ferreira. Para saber mais: www.errogrupo.com.br).

1- Parece-me um show musical no centro da cidade. Parece-me uma feira de variedades. Espaço aberto. Parece-me um pequeno grupo de vendedores-ambulantes que desejam conseguir nossa atenção e adesão. Parece-me uma provocação para os transeuntes. Certo ou errado?

2- Eles nos convidam para uma maior aproximação à um espaço improvisado. Uma tenda de ciganos? E nos abandonam lá. Saem e nos deixam reunidos. Algo acontece: as pessoas se olham, se reúnem e se re-conhecem! Somos parte da cidade. Mas somos cidadãos?

3- Começa a música. Anúncio e propaganda da venda do disco vinil da banda Geografia inútil. Quem quer comprar? Vinte reais. Eles nos pedem ajuda. Arte é produto?


4- Carnalidades no espaço público. Ironia: o show vai sendo abandonado pelos integrantes. Quem tem coragem de assumir o fracasso numa sociedade do sucesso? Sobreposição de ações, imagens e situações. Relações nascem no espaço. Roupas trocadas, discos lançados ao vento, capas de disco rasgadas e escritas inauguradas. A cidade-placa surge com suas dramaturgias. A escritura (texto performático) nasce diante de nossos olhos? O que se inscreve? Textos protestos de corpos de carne.

5- Não há mais centro nem margens. Tudo acontece! Surgem os estereótipos de uma visão colonizada do Brasil: carnaval, mulata, futebol, heróis e ambulantes de rua. Que geografia mais inútil! Mistura de teatro de rua e intervenção urbana. Composições espaciais. Vejo um senhor segurando uma placa-capa rasgada do disco. Vejo o Batman nas árvores da praça. Fluxos da vida urbana. Quem performa agora?

6- Caos? Ordem? A Voz do Brasil? Isso é espaço público? Em qual geografia você está aprisionado? E o poste que se transforma numa instalação com objetos, roupas e adereços? Quem faz parte dessa ação na cidade? Aquela mulher ali na praça também “erra”? Embaralhamentos. Sim? Não? Talvez? Erro ou acerto? Paisagens se des-locam. Se há geografia, essa é nômade! Trabalho político. Espaços globalizados? Certezas diluídas. Existem identidades nacionais?

7- A cidade performa. De-forma. RE-forma. O ERRO GRUPO perfura a estabilidade dos espaços. Corpos que brincam de viver! Acontecimento. Anarquia. Escrevemos todos nossos textos e deambulamos nossas poéticas pela praça. Concentração e circulação de corpos, desejos e afetos. Utopias. Uma política da Proximidade. O confronto com os estranhos. A desordem vivifica! “O jogos dos passos cria espaços, tece lugares”. Essa frase é de quem?

( ) Michel Certeau
( ) Michel Foucault
( ) Michael Jackson.

TENTE ERRAR! TENTE!

Vivenciei espaços para o erro. ERRO pára a vida? Ou ERRO PARA A VIDA?

Falta mais erro em nossas vidas?

segunda-feira, setembro 22, 2014

Entre o ouro e o preto, eu quero a nuvem

(Publico o texto final do show "Sonoridades Obscênicas", especialmente criado para a cidade de Ouro Preto).


"Entre o ouro e o preto
eu quero a nuvem
Teu corpo penugem
com teu corpo suar!

Foto de Beatriz Mendes


Entre a igreja e o Bar
eu quero cantar!
Orar
em línguas de bêbado e poeta
quero Ouro Preto aberta
não ter mais que pagar!

E de bar em bar
feito procissão
pedir proteção
pró-tesão
pró- Amar!

Me acabar
em vida
se a bebida
não me lançar
para tuas noites nuas
beijar
tuas luas
e tuas ruas
Louvar!

Pois minha igreja não é barroca
Minha Igreja é o BARROCO
que não existe mais!
Ou então o BARRABÁS!!!
Saudades do Barrabás!

Eu quero um país Barrabás!
Chega de nação de jesus!
Vamos tirar o Brasil da cruz!
Do pecado, da moral e do sacrifício
vamos fazer do prazer um vício!
Chega de escravidão!
Eu quero um país pagão!
Feiticeiro, brincante e plural
porno-político e sexual!

A alegria é meu SANTO FORTE
meu FRIC, meu chilique!
Meu PORÃO TREZE
Minha RUA DA LAMA
Deixa Ouro Preto ir para a cama
fazer amor
sem preconceito de classe, sexo e cor!

Que se feche uma igreja
e se abra um Bar
para a Diferença livremente dançar!

Numa cidade sem palco
sem grades
sem anjos
sem santos
sem gruas!
EU QUERO BOTAR NOSSO BLOCO NA RUA!"

segunda-feira, setembro 15, 2014

Cena dissidente e estridente: SONORIDADES OBSCÊNICAS em Ouro Preto.


Para a apresentação do show Sonoridades Obscênicas na festa de encerramento do I Seminário de Pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFOP, na última sexta dia 12, um novo roteiro performático/multi-temático foi criado.

A dedicatória do show foi para figuras históricas da cidade como dona Olímpia, Efigênia Carabina e todos os negros e negras que construíram e constroem a cidade. Fora a saudação aos escravos, aos libertos e libertinos, incluindo aí os bêbados e poetas. A relação mítica e mística com a cidade se intensificou.

Com a coordenação musical de Sabrina Biê mexemos em alguns arranjos e ainda tivemos a presença intensa da cantora e atriz Thaiz Cantasini que leu poemas e cantou “Carcará”. Mais uma atualização ouro-pretana com essa participação especial dessa “mulher em chamas”.

Novos poemas surgiram como o “Pau Feliz” de Elisa Lucinda na voz de Frederico Caiafa e “A língua lambe”, um poema pornográfico do Carlos Drummond de Andrade na voz de Sabrina Biê. Distribuímos nesse momento pirulitos de coração vermelho para a plateia que lambia e se beijava... A intertextualidade está sempre presente nessa experimentação. Foi uma noite bem erótica.

Recuperamos o momento “Classificados” da cidade: anúncios sexuais, de cura, de vendas e concomitante a formação de um “trenzinho da alegria” corporal. Aqui a produção de corpos libertos experimentando novas formas de prazer. Mas prazeres dissidentes.

Isso sem falar nos figurinos repaginados e maquiagens sempre novas! Aqui surge uma questão: comecei como anjo de túnica , depois anjo de sunga até finalizar como indígena, ainda vestindo uma camisa de seleção brasileira. Uma passagem da cristianização ao paganismo. Do civilizatório ao selvagem. Isso devido ao fato de sermos um país cristão e Ouro Preto uma cidade extremamente católica. Foi uma desfiguração e decomposição de uma colonização europeia! E também uma crítica ao aspecto religioso que vigora em nosso país e viola nossos direitos humanos. Uma série de leis são vetadas devido à dificuldade de se fazer política de forma laica e realmente democrática.

No poema final (que breve publicarei) surgiu o corpo que deambula na cidade histórica entre as igrejas e os bares. Entre o céu e a terra (ou será o inferno?). Entre o sacrifício e o vício. Entre o pecado e o prazer. Entre a identidade e a diversidade. E escrevi sobre uma memória de bares que não existem mais em Ouro Preto e foi emocionante porque as pessoas reagiam intensamente e falavam nomes de inúmeros lugares. Afeto e memória de ESPAÇOS nos quais o corpo é FESTA, ENCONTRO, DIVERCIDADE, FELIZ-CIDADE!

E mais: espaços de liberdade de se estar, amar, expressar, transar e transitar. Um exemplo: o delicioso BARRABÁS (saudade do Wallace), bar alternativo de uma cidade de Jesus e de cruz! Espaço de resistência numa sociedade estruturalmente conservadora e heteronormativa.

Atualização, experimentação, paródia, ironia, deboche e fatos e acontecimentos passados em revista e revisão com.....POESIA, MÚSICA, DANÇA E TESÃO! Daí meu interesse nessa performatividade política do trabalho. Os cantos de umbanda ecoando como vozes dissonantes numa cidade predominantemente cristã. Show de protesto, festa de rua, sarau poético-político e teatro de revista contemporâneo.

Poéticas da Recusa

Foi uma apresentação desafiante. Nas palavras de Matheus: “um touro teimoso”. Não para ser dominado, mas conquistado. Lidávamos o tempo todo com o excesso, o caótico, o disperso, o estranho etc. Mas foi maravilhoso sermos “devorados” por aquilo que já acontecia anteriormente à nossa chegada. Não há como recusar o ACONTECIMENTO!

Não há como recusar a VIDA INTENSA!

Se há a possibilidade de uma recusa, essa para mim, se dá no campo das capturas de nossa alegria e DESEJO de se efetuar micropolíticas. De se criar micro-espaços. De se instaurar micro-utopias. Zonas autônomas temporárias. Espaços arejados.

SONORIDADES recusa o acabamento, o fechamento de formas, o não perceber os outros, a imposição de uma presença, a pretensão de ser mais arte que vida, a proibição de corpos manifestos ou corpos “many-festas”. Tudo isso porque penso que desejamos inventar, ainda que momentaneamente, um outro espaço, outras formas de existência que seriam poéticas também de uma recusa. Mas numa maneira

[…] de recusar todos esses modos de manipulação e de telecomando, recusá-los para construir modos de sensibilidade, modos de relação com o outro, modos de produção, modos de criatividade que produzam uma subjetividade singular. Uma singularização existencial que coincida com o desejo, com um gosto de viver, com uma vontade de construir o mundo no qual nos encontramos, com a instauração de dispositivos para mudar os tipos de sociedade, os tipos de valores que são os nossos (GUATTARI E SOLNIK, p.22, 2007).


E a força revolucionária da festa! Nos modificamos, modificamos os tempos, o espaço, modificamos corpos e sensações. Saímos de lá modificados e molhados pelas águas do desejo e do encontro. Tudo isso gerado pela Alegria. Pois:

a ética e a estética da alegria supõem uma boa dose de loucura não psiquiátrica, de poesia, de arte, isto é, do inútil. A alegria, como o desejo, é inútil, quer dizer, revolucionária. Só a alegria e o desejo são revolucionários. Eis porque a alegria não é uma produção de uma consciência domada, ressentida, analisada, divinizada ou divãnizada (LINS, p.54, 2008).

No final a celebração e a instauração de uma cidade na qual “todo mundo irradia magia”. Cidade-água, fluída, acolhedora porque “a força que mora n'água não faz distinção de cor”... Foi uma noite de amor!!!

Referências:

FURTADO, Beatriz; LINS, Daniel(org). A Alegria como Força Revolucionária – ética e estética da alegria. In: Fazendo rizoma: pensamentos contemporâneos. São Paulo: Hedra, 2008.

GUATTARI, Félix e SOLNIK, Suely. Micropolítica - Cartografias do desejo. Rio de Janeiro: Vozes, 2007.

sábado, agosto 23, 2014

Arte e Emergência


Arte, Resistência e Utopia

Participamos da Resistência Cultural na Ocupação Vitória no domingo passado. Irmãos Lambe-Lambe e Conduza-me. Ações para partilhar tempos, espaços, lutas e encontros. Foi uma experiência intensa e que nos mobilizou: arte como rede de solidariedade. Arte e resistência. Vidas que resistem. Luta por moradia e respeito aos direitos humanos e sociais.



RESISTE ISIDORO!

No Lambe a participação das crianças e a fotografia de seus sorrisos e uma infância já permeada pelas questões cidadãs. Escutamos algumas histórias e somamos nossas micro-ações à grande luta desse movimento tão importante. Conviver ali, ainda que por pouco tempo, é manter viva a crença e utopia por uma vida melhor e com mais dignidade. O Poder da comunidade e da multidão se reafirma nesses momentos!

Mais do que uma ação artística, a mim interessa somar corpo e voz à uma causa a qual acredito, e tentar gerar visibilidade e discussões. Se for uma estética, essa será a da Emergência, a da colaboração e da indignação.

domingo, agosto 10, 2014

conduza-me

nesta quinta, dia 07 de agosto, fizemos conduza-me. a ação, realizada (se não me engano) em 2011, por erica queiroz junto ao ator-bailarino lucas alberto, consistia em uma dança em que ela, de olhos vendados, era conduzida por ele a partir dos sons da cidade.
há muito tempo estou querendo refazer essa ação. com o aprendizado do tango, quis muito ir pra rua dançar vendada. coincidiu que lissandra guimarães também estava querendo dançar e aí, em conversas, tocamos na ideia de restaurar a ação da nega. foi o que fizemos.
juntamos o conduza-me no "mapeamento" proposto pela flávia fantini - e que a gente vem realizando desde fevereiro - a partir do jogo de dados. na verdade, é bem o contrário. a proposta é o jogo de dados e a performance, sendo o mapa uma espécie de tabuleiro para o jogo: estamos trabalhando com um mapa das estações de metrô de bh. sobre ele, lança-se os dados e anda-se a partir da estação do horto (onde estamos) para uma direção qualquer, a quantidade de casas que corresponder ao número dos dados somados. nesta estação "escolhida" e arredores, performamos.
em geral já começamos a trabalhar ainda na gruta e dela já avançamos, a performar pelo caminho, até a estação alvo. pois a ideia é essa: que performemos na estação sorteada.
o que performamos? o que seria performar? é o que investigamos e experimentamos a cada vez que fazemos. é essa cartografia que estamos desenhando. para isso, a cada vez, um dos performers pesquisadores do obscena propõe um eixo para a ação: desenha um programa de ação, uma proposta.


no dia 07, a proposição era restaurar conduza-me. que seria, então, experimentada por vários pares, formados a partir dos integrantes e possíveis convidados. o trabalho de preparação foi feito por leandro acácio e dele os pares já saíram formados. um com venda. o outro guiando: fred caiafa e joyce malta. matheus silva e admar fernandes. leandro acácio e lica guimarães. sabrina andrade e flávia fantini.
eu acompanhei essa primeira etapa, de ida para a estação minas shopping. aproveitei para registrar alguns momentos.




depois, na volta, eu me vendei e fui conduzida por leandro. queria muito narrar o que experimentei. minhas impressões. pois foram tantas e tão fortes. mas, é estranho...
está sendo difícil - até quando vou comentar com outra pessoa o que vivenciamos, tem sido difícil narrar essa experiência que foi tão forte, tão prazerosa. tão mergulhada em sensações.
tive sorte. porque meu corpo estava muito disponível. e tive uma interação muito boa com meu condutor. eu me sentia segura e ia no comando dele, sem pestanejar. e ele me deixava muito livre. me guia me soltando no espaço, traçando rotas livres, caminhadas rápidas, corridas. eu voava!
foi especialmente bom no vagão do metrô que ia vazio, agora na volta. com a velocidade do trem e o espaço, era possível dançar e girar nos braços dele e quase correr... ah!
quero mais.

segunda-feira, julho 28, 2014

maninfesto-me de falta de sentido e outros devaneios. ser ou não ser, eis a questão?


segunda rodada do jogo de dados
casa sorteada: vila oeste
propositor: clóvis domingos
ação: escrever um manifesto pessoal sem saber, a princípio, o motivo. depois, ler para as pessoas na rua/metrô, aproximar-se delas. uma provocação: sem representar.



"um manifesto pessoal e não há o que falar. deixo a mão escrever o fluxo de gruta, o fluxo dos nossos corpos. opa, esbarrou alguma coisa aqui, intensidade de ondas sonoras que vêm da rua. sem pensar em pensar já é o próprio pensamento. roberto carlos tá lá fora. pela vida! pelada. pela ____________________________  porque bla la la la la la como é ter a língua na mão. desenho de letra e de corpo. desenho em vermelho e faltam 2 minutos. 2 minutos é muito tempo... agora deve faltar 1 minuto e meio e escrevo assim por extenso que é para proloooooooooooooooooongar a ____________ esqueci. prolongar a ação do gesto no tempo e deixar de manifestar-me ou manifestar-me assim. ok!"

cena 1: senhora no metrô
saio da gruta com meu manifesto em mãos. putamedo. putatesão. vila oeste, nunca fui. aproximar-me das pessoas, falar com elas. putaquepariu. será que consigo? entro no metrô e sento num banco disponível. começo a observar meus colegas "mais experientes", como será que eles vão fazer? reparo o caminho, os muros lá fora, as pessoas aqui dentro. de repente, uma senhora entra e fica em pé. a senhora quer sentar? ela balançou a cabeça que sim. olha, eu tô com dificuldade de ler esse papel, tem uma letra estranha. a senhora me ajuda? ela pegou o papel e não leu uma palavra. começo a ler pra ela, interpreto suas maneiras e receio incomodá-la. não entendi nada, ela disse. deve ser por isso que está escrito com letra confusa, comentei. parece letra de médico, concluiu. (letra de médico, escrita automática. alguns médicos prescrevem automaticamente nossos corpos?).

cena 2: senhor na banca de dvds
chegamos na vila oeste mais ou menos às 16h30, temos até as 17h por ali. a estação é cheia de corredores e passarelas que levam a um lado e outro. achei bonito, diferente das outras em que já estive. difícil escolher pra que lado ir, mas vou junto com a galera conhecida que tenho em vista. saio na rua e vejo uma banca de dvds próxima a um ponto final de ônibus. começo a ver os títulos. opa, aí não! é que eu tava mexendo na fileira de dvds pornográficos e o dono da banca logo me proibiu. se eu ler uma coisa que eu escrevi, você me deixa ver essa parte? ele só exitou e mesmo assim comecei a ler. ele e o cara do lado, um motorista esperando a hora de seu ônibus partir, fazem cara de estranhamento. o motorista sai, diz alguma coisa e eu continuo falando com o moço da banca: opa! esbarrou alguma coisa aqui. intensidade de ondas sonoras que vêm da rua. paro, olho mais fundo pra ele. dou um espaço de tempo e continuo. ele não diz nada. pergunto se posso ver os filmes. ele exita de novo e diz que sim. eu olho e digo que não gostei de nenhum, e que ele não se preocupe porque sou maior de idade. - é que mulher é mais complicado, né..

cena 3: garota na calçada
saio em outra direção. sinto-me uma trabalhadora do acaso e deixo ele brincar comigo. quero conhecer a vila oeste e os caminhos vão me levando. penso em me aproximar de algumas pessoas e não tenho coragem. observo uma casa pra alugar. quanto será o aluguel por aqui? é perto do metrô... já na avenida amazonas, uma menina vem na direção oposta. ela tem mais ou menos a minha idade e eu decido falar com ela. oi, tudo bem? pra onde você tá indo? pra lá, encontrar uns amigos. posso ir com você? é que escrevi uma coisa, quero ler e saber o que você acha, posso? pode. leio e ela diz que não entendeu nada, coisa que seu rosto já dizia antes. fico sem graça e puxo outros assuntos. ela me diz que não gosta de carnaval, que mora em salvador e não gosta do pelourinho. ela resolve parar pra esperar. sento com ela um pouco, conversamos e desconfio que já deu a hora de voltar. digo que vou pro metrô, mais cedo, perguntara a ela onde era a estação. ela se levanta e vai comigo. eu volto ao texto, digo que é louco porque às vezes nem eu entendo o que escrevi. ela me diz que às vezes, ela sente umas coisas e vai lá e escreve também. chegamos à esquina, ela me aponta o metrô e nos despedimos com um abraço.

cena 4: volta no metrô, dupla + menino + gente
entro na estação e o relógio me diz que já era hora de estar na gruta. tenho vontade de ler pra mais gente, sento ao lado de um moço e fico muda. uma moça senta ao meu lado. respiro fundo, tomo coragem e ela pega seu celular. entro no metrô e resolvo sentar entre duas pessoas que conversam. conversa vai conversa vem. isso é bom, parece que enche o estômago. muito sal, né. intrometi. ela guardou o salgadinho na bolsa e eu perguntei se ela era boa de letra, porque minha amiga me passou um papel e eu não conseguia bem ler o que estava escrito, apesar de estar curiosa e tentando muito. ela pegou o papel e logo concluiu: uma receita médica! depois de um tempo olhando: roberto carlos... fora... mais um pouco e ela disse: é alguma doença nos ossos, aqui tá dizendo ossos do corpo. mais um pouco e outras palavras desvendadas. faltam 2 minutos. 2 minutos é muito tempo... ela percebeu que não era uma receita médica: deve ser coisa de gente que estuda muito. quem estuda muito começa a falar coisa sem sentido, não é bom não, eu penso assim. eles descem na estação central.
mais um tempo e peço a outro menino, bem jovem. ele tenta ler, fica um pouco bravo porque não consegue e nesse momento há mais duas pessoas pescoçando o papel na mão dele, curiosas, tentando entender a letra. ele lê: prolongar a ação do gesto no tempo e deixar de manifestar-me ou manifestar-me assim. ok! os olhos, dele e dos pescoçudos, riem de leve e se suspendem no ar. o horto chegou. saio e faço com o corpo que tento ler. penso se isso seria representar e, ao mesmo tempo, não enxergo texto no papel, mas um emaranhado de letras que não se fixam em meus olhos.


pedir a alguém para ler, criar uma mentira para aproximação, isso seria representar? representar, no caso, seria servir-se de uma maneira talvez já capturada, banal, cotidiana, de aproximar-se de outras pessoas? e se essa mentira serve de apoio a novas conexões do meu corpo, faz com que ele habite novos espaços de relação, me desloca um milímetro que seja do que é do hábito, represento? qual tempo encadeia esses momentos que, carinhosamente, chamo de cenas? "o desejo faz correr, flui e corta". o corte é matéria do próprio fluxo. a água, por exemplo, ela flui, por natureza. se parada, dá dengue, algo se produz, mesmo numa suposta inércia. ou uma correnteza forte, uma queda bruta que desemboca num riacho estreito e sereno. não há intensidade especial, há disponibilidade para lidar com os esbarramentos dos corpos e deixar-se levar por eles. ou não. como, onde, quando? não há fórmulas. intensidade espacial, corpos são espaços rodeados por espaços, respirando espaços. um livro diz que o cinza é a cor sem personalidade porque mescla o preto e o branco. corpos performam corpos.
representar. como um ator que repete automaticamente sempre o mesmo texto, os mesmos trejeitos, no mesmo cenário? ou atuar, no sentido de estar em atividade contínua de invenção? a possibilidade de ficcionalizar o cotidiano está relacionada à produção de diferença, de modos outros de experienciar o próprio cotidiano,  à invenção de possibilidades de convívio e aproximação entre os corpos - das pessoas, objetos, animais, instituições, tecnologias, natureza, etc - diferentes daqueles traçados pela Família, pelo Estado, pelos Médicos, pelo Mercado, pela Mídia, pela Moda, pelo Amor, pelas Imagens, pelo Ego, pela Sexualidade, pela Pornografia, pela Farmácia... propor invenções. o que não quer dizer a negação de tudo o que já existe, mas escolher os agenciamentos, os conjuntos que nos convém, porque assim desejamos. inventar, coletivamente, subjetividades desviantes. para beatriz preciado, identificações como Homem/Mulher, Homo/Heterossexual, Trans/Intersexual, Masculino/Feminino, são ficções políticas vivas e encarnadas: "é possível que estejamos numa situação em que devamos, coletivamente, nos rebelar contra essas ficções políticas que nos constituem. desidentificarmo-nos politicamente delas e imaginar coletivamente outras ficções políticas que não produzam violência, que não produzam sistematicamente formas de opressão e formas de exclusão."

acaso como potencializador do pensamentocorpo. necessidade de ativar uma lógica do agir que disponibiliza o corpo a lidar com o instante já, sacar o presente ao invés de tentar entendê-lo. desentupir e entropir. pensamento sem imagem que é a própria possibilidade e dispositivo de invenção. que possibilita o não saber, o desconhecer, imergir na escuridão e por lá ficar como num exercício de descondicionar-se, já que a condição de ser é conhecer )= penso, logo existo =( , já que a condição de ser muitas vezes passa por ser humano.

cartografar a cidade, criptografar, se necessário. mapa estrangeiro, clandestino, geometria espacial caosmótica, psicotopologia: "em lugares desconhecidos posso ser outra e encontrar outra cidade", diz clarissa campolina, em seu filme notas flanantes, que tanto inspirou a proposição do jogo de dados. criar redes outras, virtumanualmente, microencontros e comunidades breves. devir disperso, anterior a fronteiras e sem pedir perdão. devir mistura, bagunçando limites, tirando tudo do seu devido lugar. e sem pedir licença.

maninfesto-me,

por corpos ambíguos, amorais, livres da fixação de territórios fronteiriços, dicotômicos, em prol da livre movimentação dos fluxos e das arquiteturas. movimento ilimitado. como ter a língua nas mãos, corpo do bricoleur, cidade bricolada. corpos des-montáveis, casas portáteis, legos esquizofrênicos. sem hierarquia de lugares de prazer e de lazer, de faculdades do pensamento (para proust, o sujeito é constituído de faculdades de pensamento diversas: intelecto, sentimento, sensação, lógica, memória, matemática, etc. e aí, há um tal pensamento puro que possibilita o esquecimento da morte e a imortalidade da alma, e que não pertence ao sujeito, pertence à arte). não são corpos neutros ou informes, são corpos que assumem a forma que querem, quando querem e porque querem. e sem pedir licença! corpo maleável, plasticamente moldável, espacialmente deslocável. descolável. corpo dançarino, caça com os ouvidos e tem ouvidos nos pés. se conecta a redes virtuais e à corrente elétrica. corpo feito de carne quente e espírito livre. de plástico e motor, osso e ferro, corações e pontes de safena. corpocidade. multiplanejada. fora dos contornos.



domingo, julho 06, 2014

Carta Irmãos Lambe-Lambe: Para não te esquecer


Carta enviada para os participantes da ação "Irmãos Lambe-Lambe". Nesse trabalho se entrelaçam: violência, afeto e memória.


"Belo Horizonte, 01 de Abril de 2014.


Prezadas companheiras

WALKÍRIA, NILDA, ESMERALDINA, ÁUREA e MARIA AUXILIADORA

Saudações Libertárias!

Há dias tenho a companhia de vocês por perto: suas imagens, trechos de suas histórias, suas lutas etc.

Hoje, 50 anos do golpe civil-militar no Brasil e ainda sabemos tão pouco do que realmente se passou, nos indignamos quase nada diante da violência do Estado que infelizmente continua até hoje. Temos uma herança de escravidão e violência desde a chegada dos colonizadores europeus que aqui cometeram um genocídio indígena e saíram impunes.

Como há muito tempo: aqui se mata. Aqui se elimina aqueles que se opõem ao autoritarismo e à mentira. Como aconteceu no caso de vocês: vidas roubadas, sonhos desfeitos, famílias separadas e vozes silenciadas.

Tenho falado de vocês cinco com pessoas com as quais convivo: amigos, familiares, parceiros do Obscena, alunos etc. Contra a estratégia do esquecimento eu RESISTO mantendo viva a MEMÓRIA de vocês, mulheres corajosas!


Chove lá fora e uma ação artístico-político-urbana (Irmãos Lambe-Lambe) que eu e Leandro preparamos, não pôde acontecer numa praça da cidade. Mas garanto que as imagens de vocês circularam hoje em muitas praças (ainda que virtuais) e se fizeram lembrança e PRESENÇA. Vocês foram “corporificadas” através dos pesquisadores do Obscena. Nessa ação tão simples, ainda que por um instante: mãe e filha se reencontraram, algumas foram acalentadas, outras “roubaram” o rosto de pessoas e os nomes de vocês foram ditos, repetidos e se somaram aos nossos.

Faço dessa minha carta um ato performático. Nessa minha escrita solitária busco a presença de vocês e de todos os torturados e mortos pela ditadura militar no Brasil.

PROCURO-ME! PROCURO-VOS!


Procuro em vocês renovar a crença e desejo de transformação social e coletiva!


Eu vos escrevo: eis uma performance viva!


Obrigado por existirem aqui, agora e sempre!


Vocês continuam vivas!

Um abraço,

Clóvis e Leandro".

sexta-feira, julho 04, 2014

festa dionisíaca II

Na postagem anterior o depoimento de Gustavo sobre o Sonoridades Obscênicas chegou num momento que leio Maffesoli e isso promove encontros e diálogos interessantes. Segue mais um trecho no qual o autor fala da festa e Dioniso como algo regenerador:

"Há sempre necessidade de tornar a representar o caos original, trazer à cena a violência fundadora, em resumo, exprimir um prazer nômade que é, sob muitos pontos de vista, regenerador.



É isso mesmo que lembra a metáfora dionisíaca: para que uma sociedade viva ou sobreviva, é necessário que, ao lado da produção ou da reprodução, possa existir alguma coisa de improdutivo. Dioniso é uma figura emblemática que não se preocupa com a ação organizada que é a economia do mundo, nem com a previsibilidade familiar que é a economia sexual. Em resumo, não trata da descendência , do que está por vir. Mas, sendo totalmente indiferente ao poder, que repousa, essencialmente, sob uma ação voltada para o futuro, sobre as coisas e as pessoas, essa atitude tem um inegável potencial, pois dá ênfase à força do presente, à intensidade que é sua, e ao fato de que, esgotando-se no ato, sem preocupação com um resultado futuro, garante, de um modo misterioso, a permanência a longo prazo de um dado conjunto".

( Sobre o Nomadismo - Vagabundagens Pós-Modernas. 2001, p.132).

terça-feira, julho 01, 2014

Sonoridades: Festa dionisíaca


Festa dionisíaca

“Antes de ir, a Nina contou que tinha um espetáculo, mas não repassei a informação pros meus amigos. Se eu tivesse dito que era "teatro", talvez eles não tivessem ido. O povo meu amigo de infância e de adolescência tem preconceito com cinema, show, teatro... Para eles o negócio é falar bobagem e tomar cerveja. Então estávamos indo para uma boate beber e dançar. E no auge da felicidade, depois de ficarmos mais soltos com a bebida e de estarmos entregue à dança, começa o show Sonoridades Obscênicas.

Os meus amigos ficaram deslumbrados desde o começo. Eu também, obviamente. Ao nosso redor, tudo era aquele momento. Girando, nós nos sentíamos livres. Nós estávamos cantando com os artistas, repetindo o que tinha sido dito, comentando, rindo. Rindo muito. "Tira a mão daí, tira a mão daí, tira a mão daí que eu tô de modess". Como eu estava meio alto, não me lembro da ordem das coisas. Mas na memória ficaram os figurinos que me remetiam a deidades, e o espaço, de fato, uma gruta. Tudo tão onírico, tão orgiástico. Tão Baco. E com aquele ar de decadência que Baco exige, uma decadência demi-monde de artistas e prostitutas, uma elegância que se desnuda a ponto de explicitar o fake da elegância e do "bom gosto". A DJ tocando o terror na dublagem, momento em que pensei no quanto aquilo podia ser visto como uma desconstrução do show da drag. A faixa sendo aberta sobre nossas cabeças, todo mundo pulando. "Eu quero é botar / meu bloco na rua". E aí a rua era nossa, mas dentro da Gruta era como se já fosse rua, tamanha a sensação de liberdade que o espetáculo trazia.

Por fim, falei aos meus amigos: "Se eu tivesse falado que era espetáculo, vocês não tinham vindo". Eles concordaram. Entretanto, aquilo era, pra eles, diferente. Diferente, suponho eu, pelo fato de ter mais afinidade com o nosso tempo. Todos nós queremos voltar, participar dessa festa de novo, ainda mais pela delícia de saber que o cardápio não será sempre o mesmo. Nesta minha primeira experiência de espetáculo, tivemos uma sexta-feira treze dia de Santo Antônio com lua cheia. O que será a próxima? Fica a expectativa".

(Depoimento de Gustavo Moreira enviado por e-mail).


domingo, junho 29, 2014

Festa como performance: por uma política da alegria


Mais um "Sonoridades" e a festa como forma de existência e celebração coletiva. Foi mais uma noite quente, pulsante, com corpos performando a vida, a cidade e a rua como Encontro.

Um novo roteiro vivenciado (homenageamos Elza Soares), novas experimentações na maquiagem, nos figurinos, no espaço etc. Uma performance num "lugar-entre": show-protesto e teatro de revista. Falamos de Brasil, Copa do Mundo, cidade, sexo, arte e política de miscigenação de linguagens, desejos e afetos. Um viva à Diferença!

Festa como performance!

"Entre os meios que cada sociedade se dá para instaurar ou restaurar - a mobilidade, a agitação, a instabilidade - está seguramente a festa. A festa é essencialmente aventurosa. De fato, nunca se sabe o que pode acontecer quando se começa uma efervescência festiva. Pode-se mesmo dizer que a estrutura da festa consiste em não saber o que está para acontecer. Nada é previsível. O excesso tem, potencialmente, direito de cidadania. É mesmo a aventura que se vai buscar nas diversas festas que marcam a vida social. (...) Não há nenhuma sociedade, qualquer que seja, que não tenha necessidade, em um momento ou em outro, de questionar o arranjo bem comportado de sua organização".

(Michel Maffesoli, "Sobre o Nomadismo: vagabundagens pós-modernas. Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 131).

domingo, junho 22, 2014

Sonoridades vem aí de novo!!!!

Fico pensando que no Sonoridades tem uma "mixagem" de linguagens e desejos beirando arte-vida- corpo-acontecimento e tem alegria, que é a mais poderosa política para os dias atuais, né?




sexta-feira, junho 20, 2014

remédio caseiro para dor de cabeça


COMO CONTROLAR UM DISTÚRBIO URBANO?

- gás lacrimogênio
para tirar o oxigênio
de corpos vândalos
que produzem o escândalo
de se indignar.

E SE NÃO ADIANTAR?

- bombas de efeito moral
sobre esse pessoal
que só traz o perigo
eles são inimigos
da ordem estabelecida.

ALGUMA OUTRA MEDIDA?

- balas de borracha
nessa gente que marcha
e faz quebradeira
na prateleira
do Poder.

E SE NÃO CONTER?

- cacetete e porrada
sangue fora da veia
Cadeia
e mais nada.

MAIS ALGUMA DECLARAÇÃO?

- vamos manter a calma e a paz
nada de manifestação
só a polícia é capaz
de garantir a segurança
a esperança.


E TAMBÉM FAZER JUSTIÇA?

- tem muita gente com preguiça
de trabalhar
então o jeito é controlar
esses vagabundos
que acham que vão mudar o mundo.


AMANHÃ VAI SER MAIOR”?

- mas com certeza
essa operação limpeza
não vai nunca terminar!

TEM MUITA GENTE PRÁ MATAR?

- ….....

domingo, junho 15, 2014

Salve, Padilha, cheia de graça!


Um grande tecido, um enorme véu vermelho traça o chão da Guaicurus, lugares de luxúria, de gozo, o espaço da mulher. A mulher padilha na cama do motel. A mulher padilha que batalha no/com o corpo o dinheiro forçoso do capital diário. A mulher padilha que é mulher cotidiano.

- Aí, vem a pomba gira! Isso é candomblé.

As pessoas nos falavam o que era aquilo. Nos diziam o que estavam acontecendo. Uma mulher que joga pétalas de rosas em mulheres da vida, mulher do sexo, prostitutas, putas! Em mulheres pobres, moradoras de rua. Mulheres à margem. Padilha é a margem das mulheres, e lá ela estava.

O que se ouvia das pessoas era extremamente interessante, as definições eram várias.

- Que noiva mais triste.

- A noiva de satanás!

Uma moça veio em minha direção dizendo:

- Isto é espiritual, não é? Parece, né?

É muito interessante como em nosso país, religioso, realmente, isso é confirmado quando algo é feito com matérias e quesitos que estão neste imaginário da religiosidade.

O véu!

Rasgando em vermelho o acinzentado das ruas da Guaicurus, interrompendo o fluxo de subida e decida dos homens e seus desejos rasgados sob as calças jeans.

A mulher que ficou lá em cima é matéria cá embaixo, as pétalas são distribuídas pelas ruas e os olhares pasmados dos passantes parecem não acreditarem no que veem. Que figura seria aquela, vendada, vestida como umas das trabalhadoras dos estabelecimentos que atendem o prazer do macho insaciável.

Não sei se é espiritual, prefiro não pensar assim. Mas sinto ser do lugar do sensível, de uma lógica do sentir, sim, Padilha é uma ação que mexe com as sensações das pessoas, o corpo afeta-se com a presença daquela figura, as pessoas se movimentavam, vão atrás. Um homem chegou a voltar a rua e observar, ficava olhando de longe a Padilha no passeio aguardando o sinal abrir para atravessar.
Padilha é uma ação muito forte e cada vez é um acontecimento completamente diferente do outro, como quando Padilha grávida jogou pétalas à uma senhora moradora de rua que chorou e cantou à Padilha. 

Padilha é um troço fantástico.

Só vendo para sentir.