agrupamento independente de pesquisa cênica

Composto atualmente pelos artistas pesquisadores Clarissa Alcantara, Clóvis Domingos, Frederico Caiafa, Joyce Malta, Leandro Acácio, Lissandra Guimarães, Matheus Silva, Nina Caetano e Saulo Salomão, o Obscena funciona como uma rede colaborativa de criação e investigação teórico-prática sobre a cena contemporânea que visa instigar a troca, a provocação e a experimentação artísticas. Também participam dessa rede colaborativa obscênica os artistas Admar Fernandes, Erica Vilhena, Flávia Fantini, Sabrina Andrade, Sabrina Biê e Wagner Alves de Souza.

São eixos norteadores do agrupamento independente de pesquisa cênica, o work in process, os procedimentos de ocupação/intervenção em espaços públicos e urbanos e os procedimentos de corpo-instalação, além da investigação de uma ação não representacional a partir do estudo da performatividade e do pensamento obra dos artistas plásticos Artur Barrio, Hélio Oiticica e Lygia Clark.

Atualmente, o Obscena desenvolve o projeto Trânsitos Performáticos, que propõe tanto trocas virtuais e experimentação de práticas performativas junto a outros coletivos de arte das universidades, como ainda a investigação teórica e prática de experimentos cênicos no corpo da cidade. Os encontros coletivos se dão às quintas-feiras, de 15 às 19 horas, na Gruta! espaço cultural gerido pelo coletivo Casa de Passagem.

A criação deste espaço virtual possibilita divulgar a produção teórico-prática dos artistas pesquisadores, assim como fomentar discussões sobre a criação teatral contemporânea e a expansão da rede colaborativa obscênica por meio de trocas com outros artistas, órgãos e movimentos sociais de interesse.

segunda-feira, junho 17, 2013

Protestos coletivos: corpos indignados na cidade







"Você não vai poder ficar em casa, irmão.
Você não vai poder sentar, ligar e dar o fora.
Você não vai poder se perder na troca de canais.
Ou sair e pegar cerveja nos comerciais
porque a revolução não será televisionada.
A revolução não será televisionada, não será televisionada, não será televisionada a revolução,
não será televisionada.

A revolução não terá reprises, irmãos.
A REVOLUÇÃO SERÁ AO VIVO."

Gil Scott-Heron (1970).



Foto de Whesney Siqueira
Praça Sete. BH/MG
Protestos hoje e que duram até a noite.

quarta-feira, junho 12, 2013

Zonas Autônomas Temporárias


Há um tempo atrás, em uma conversa telefônica, eu e Clóvis tínhamos decidido nos encontrar em algumas terças – provavelmente encontros quinzenais – para discutirmos alguns textos e dar seguimento a alguns aspectos, digamos, “temáticos” de nossa pesquisa, junto ao Obscena, que tem nos inquietado. A questão da cidade, ainda bastante presente. Também do artivismo. E algumas experiências que temos feito/passado por elas e queríamos compartilhar um com o outro.
Na última reunião do Obscena, estendi o convite a outr@s e, então, ontem nos encontramos, eu, Clóvis, Joyce e Lissandra, para discutirmos o texto TAZ, de Hakim Bey. No melhor espírito festivo das TAZ, escolhemos um boteco sossegado na região do Horto.
A conversa foi bastante produtiva, lançando pontes para vários lugares. Em questão, as noções de revolução, levante, mapa psicogeográfico, fendas e invisibilidades, redes e festas. Movimentos sociais e internet. Ações passadas e futuras do Obscena. E seus modos de funcionamento.  Ficou o desejo de experimentar algumas cartografias do afeto/linhas de fuga.
Abaixo, seguem algumas notas do texto de Hakim Bey, que me alimentaram para essa conversa e que giram em torno de aspectos que desejo aprofundar mais.

DO CAPÍTULO: ESPERANDO PELA REVOLUÇÃO.
A TAZ é uma espécie de rebelião que não confronta o Estado diretamente, uma operação de guerrilha que libera uma área (de terra, de tempo, de imaginação) e se dissolve para se re-fazer em outro lugar e outro momento, antes que o Estado possa esmagá-la. Uma vez que o Estado se preocupa primordialmente com a Simulação, e não com a substância, a TAZ pode, em relativa paz e por um bom tempo, "ocupar" clandestinamente essas áreas e realizar seus propósitos festivos. (...)
Assim que a TAZ é nomeada (representada, mediada), ela deve desaparecer, ela vai desaparecer, deixando para trás um invólucro vazio, e brotará novamente em outro lugar, novamente invisível, porque é indefinível pelos termos do Espetáculo. Assim sendo, a TAZ é uma tática perfeita para uma época em que o Estado é onipresente e todo-poderoso mas, ao mesmo tempo, repleto de rachaduras e fendas. (...)
Em suma, uma postura realista exige não apenas que desistamos de esperar pela "Revolução", mas também que desistamos de desejá-la. "Levantes", sim - sempre que possível, até mesmo com o risco de violência. Os espasmos do Estado Simulado serão "espetaculares", mas na maioria dos casos a tática mais radical será a recusa de participar da violência espetacular, retirar-se da área de simulação, desaparecer.
A TAZ é um acampamento de guerrilheiros ontologistas: ataque e fuja. Continue movendo a tribo inteira, mesmo que ela seja apenas dados na web. A TAZ deve ser capaz de se defender; mas, se possível, tanto o "ataque" quanto a "defesa" devem evadir a violência do Estado, que já não é uma violência com sentido. O ataque é feito às estruturas de controle, essencialmente às ideias. As táticas de defesa são a "invisibilidade", que é uma arte marcial, e a "invulnerabilidade", uma arte "oculta" dentro das artes marciais. A "máquina de guerra nômade" conquista sem ser notada e se move antes do mapa ser retificado. Quanto ao futuro, apenas o autônomo pode planejar a autonomia, organizar-se para ela, criá-la. E uma ação conduzida por esforço próprio. O primeiro passo se assemelha a um satori - a constatação de que a TAZ começa com um simples ato de percepção.

DO CAPÍTULO: A PSICOTOPOLOGIA DA VIDA COTIDIANA
O mapa está fechado, mas a zona autônoma está aberta. Metaforicamente, ela se desdobra por dentro das dimensões fractais invisíveis à cartografia do Controle. E aqui podemos apresentar o conceito de psicotopologia (e psicotopografia) como uma "ciência" alternativa àquela da pesquisa e criação de mapas e "imperialismo psíquico" do Estado.
Estamos à procura de "espaços" (geográficos, sociais, culturais, imaginários) com potencial de florescer como zonas autônomas - dos momentos em que estejam relativamente abertos, seja por negligência do Estado ou pelo fato de terem passado despercebidos pelos cartógrafos, ou por qualquer outra razão. A psicotopologia é a arte de submergir em busca de potenciais TAZs.
O fim da Revolução e o fechamento do mapa são, no entanto, apenas as fontes negativas da TAZ: ainda há muito a dizer sobre as suas inspirações positivas. Reação somente não pode gerar a energia necessária para "manifestar" uma TAZ. Um levante também precisa ser a favor de alguma coisa.
-  Se a família nuclear é gerada pela escassez (e resulta em avareza), o bando é gerado pela abundância (e produz prodigalidade). A família é fechada, geneticamente, pela posse masculina sobre as mulheres e crianças, pela totalidade hierárquica da sociedade agrícola/industrial. Por outro lado, o bando é aberto - não para todos, é claro, mas para um grupo que divide afinidades, os iniciados que juram sobre um laço de amor. O bando não pertence a uma hierarquia maior, ele é parte de um padrão horizontalizado de costumes, parentescos, contratos e alianças, afinidades espirituais etc.
- A TAZ como um festival. Stephen Pearl Andrews certa vez elaborou uma imagem da sociedade anarquista como um jantar, no qual todas as estruturas de autoridade se dissolvem no convívio e na celebração (veja o apêndice C). Aqui poderíamos também invocar Fourier e seu conceito dos sentidos como base de transformação social - "toque do cio" e "gastrosofia", e seu louvor às negligenciadas implicações do olfato e do paladar. Os antigos conceitos de jubileu e bacanal se originaram a partir da intuição de que certos eventos existem fora do "tempo profano", a unidade de medida da História e do Estado. Essas ocasiões literalmente ocupavam espaços vazios no calendário – intervalos intercalados. [...]Os que participam de levantes invariavelmente notam seus aspectos festivos, mesmo em meioàluta armada, perigo e risco. O levante é como um bacanal que escapou (ou foi forçado a desaparecer) de seu intervalo intercalado e agora está livre para aparecer em qualquer lugar ou a qualquer hora. Liberto do tempo e do espaço, ele, no entanto, possui bom faro para o amadurecimento dos eventos e afinidade com o genius loci. A ciência da psicotopologia indica "fluxos de força" e "pontos de poder" (para usar metáforas ocultistas) que localizam a TAZ num espaço-temporal, ou que, pelo menos, ajudam a definir sua relação com um determinado momento e local. [...]Seja ela apenas para poucos amigos, como é o caso de um jantar, ou para milhares de pessoas, como um carnaval de rua, a festa é sempre "aberta" porque não é "ordenada". Ela pode até ser planejada, mas se ela não acontece é um fracasso. A espontaneidade é crucial.
-  O conceito de nomadismo psíquico (ou, como o chamamos por brincadeira, "cosmopolitismo desenraizado") é vital para a formação da realidade da TAZ. Aspectos desse fenômeno foram discutidos por Deleuze e Guattari em Tratado de Nomadologia: a máquina de guerra, por Lyotard em Driftworks e por vários autores na edição "Oásis" da Semiotext(e). Preferimos o termo "nomadismo psíquico" a "nomadismo urbano" ou "nomadologia", "ações à deriva" etc., simplesmente para poder juntar todos esses conceitos num único sistema complexo que será estudado à luz da emergência da TAZ.
(...) cria "ciganos", viajantes psíquicos guiados pelo desejo ou pela curiosidade, errantes com laços de lealdade frouxos (na verdade, desleais ao "projeto europeu", que perdeu todo o seu charme e vitalidade), desligados de qualquer local ou tempo determinado, em busca de diversidade e aventura...


AVENTUREMO-NOS!

terça-feira, junho 11, 2013

sonoridades obscênicas, recortes


com amor,

recortes do Sonoridades Obscênicas,
acontecido no Centro Cultural São Geraldo - BH em 2012

olhasdelícia!


sexta-feira, maio 24, 2013

Publicando o produzido.

Efêmeros atos
de obscenizar o dia
um fazer diferente,
vida.

Dois em passo de um
gaiolas de n[o]s
livres...

Presos em sorriso
presos em imagens
prisão?

EngaioLados


(MultipliCidades Obscênicas: Um Programa Obscênico)

EngaioLados
Performers: Joyce Malta e Matheus Silva
Filmagem e edição
FRida

https://www.youtube.com/watch?v=Lu2EnLQFh_M

quinta-feira, maio 23, 2013

dançafeto: da porta da rua pra fora.

dança das afetações. deriva. psicogeografia de luz e sombra. próteses anexos e extensões. paisagens urbanas. blocos de cor. feminino.


 
lica orienta o trabalho corporal. equilíbrio. encaixe. desequilíbrio. meu corpo e do outro. ela nos ativa. nos bota a dois. os panos nuvem. a cidade. a dança com a cidade. botar o bloco na rua.
de par grudamos eu e joyce. e nosso pano nuvem. saltos vermelhos. presa entre panos. inevitável feminino(ismo).


saltos e música. estou coberta por carne quente. a gruta.
saimos porta a fora e tudo que sai da minha boca soa falso.
a gente vai ficar lindo na parede de grafitte. (e na coreografia do sinal)
tira foto pra botar no facebook.

eu vou curtir.
e eu, vou compartilhar.
 ei! ai.
deu até samba:  "essa aí vai dá uma foto...
                          essa aí vai dar..."

p.s. bom mesmo foi a moça que enrolamos e as duas menininhas que seguimos, entre medos e risos.
p.s.2: fotos de admar fernandes.

sábado, maio 04, 2013

Engaiolada de sorriso preso

AdivinhaaDiva: pós-gênero?


Foto: Frederico Caiafa

No dia 05 de abril de 2013, aconteceu, durante o Festival Roda de Rock, AdivinhaaDiva, com as presenças de Carolina Botura, Flávia Fantini, Leandro Acácio e eu. Realizamos, durante nossos encontros anteriores, leituras de alguns trechos do livro de Daniel Paul Schereber, "Memoirs", de 1903. Nele, o autor, toma notas a respeito de seu estado mental e físico, e também das muitas experiências interiores estranhas que tivera. Em seu sistema delirante, tal como se revela nas "Memoirs", Schereber:
 -Sentia que tinha a missão de redimir o mundo e reconduzi-lo a seu estado de bem aventurança.
-Tal missão deveria ser precedida da destruição do mundo e pela transformação de sua pessoa em mulher.
-Já transformado em mulher, Schreber seria a companheira de Deus, e desta união surgiria uma raça melhor e mais saudável de homens.
Flávia sugeriu textos de Beatriz Preciado, que é uma participante ativa do atual debate sobre os modos de subjetivação e identidade, não somente na Espanha, como também em distintos debates internacionais. Seu livro “Manifiesto Contrasexual” (Barcelona: Opera Prima, 2002) tornou-se uma referência indispensável à teorização queer contemporânea. Carolina Botura sugeriu, para pensar mais sobre o corpo híbrido, um vídeo:http://www.youtube.com/watch?v=NYTJpHeVVeQ.
Leandro quis explorar máscaras gigantescas, desenhadas por ele, para um "devir-pintor". E aconteceu, conforme Guimarães Rosa, no conto Substância, do livro "Primeiras Estórias", "o não-fato, o não tempo, silêncio em sua imaginação. Só o um-e-outra, em em-si-juntos, o viver em ponto sem parar, coraçãomente: pensamento, pensamor." Amanhã nos encontraremos para conversar e ver as imagens, trocar os perceptos,  comentar os afetos, pesquisar.






quarta-feira, maio 01, 2013

dancemos, dancemos tod@s, senão estaremos perdid@s!

é engraçado que, ao parafrasear pina para fazer meu título e falar de uma condição hoje vital para mim, defrontei-me também com a marcação de gênero. e com a percepção do modo como estas duas questões - a dança e o feminismo - estão, a meu ver, em muitos momentos do meu trabalho, misturadas... explico.
sábado, dia 27 de abril, participei da performance de rua "dançar é uma revolução!". essa ação, organizada por um coletivo (não-organizado) de mulheres, pretende-se mensal e itinerante. a idéia é que, no último sábado de cada mês, mulheres se reúnam, em alguma praça de belo horizonte, para dançar contra a violência.
na primeira vez que fizemos, foi como uma resposta ao convite do one billion rising, evento de ordem mundial que tem a seguinte chamada (aqui em versão livre): "uma em cada três mulheres será agredida durante toda a sua vida. 1 bilhão de mulheres agredidas é uma atrocidade. 1 bilhão de mulheres dançando é uma revolução". lembro-me que o dia marcado para acontecer a ação, no mundo, havia sido 14 de fevereiro. no entanto, em várias cidades do brasil a coisa estaria acontecendo no sábado, dia16.
foi legal observar isso porque, ao receber um convite de uma amiga de londrina, pelo face, para participar da ação no dia 14, ou seja, para dançar em qualquer lugar, em minha cidade, pensei que seria interessante fazer isso coletivamente (acredito muito que pelas experiências anteriores do obscena com a marcha mundial das mulheres e com outras performers feministas com quem dialogamos sempre, experiências sempre muito produtivas, do ponta de vista político e estético) e, como estava muito em cima da hora para fazer na quinta, acabei chamando esses grupo de mulheres parceiras, colaboradoras, a desenhar, para o sábado 16,  uma dança/ação coletiva na praça 7, lugar tradicional de protesto na cidade.
partimos de alguns elementos já desenvolvidos pelo obscena - como a idéia de dançar cada uma a sua música, com fones de ouvido, como na ação performática festa no metrô - e de outros, que surgiram de símbolos do movimento feminista, como a cor roxa para nos vestirmos; ou das ações individuais, como a escrita a giz no chão - que desenvolvo em minhas ações desde 2008 - ou o cartaz da resistência negra, empunhada por luana tolentino.

e assim fizemos: de roxo e branco, cada uma com um set musical diferente, que escutava em seus fones de ouvido, dançamos juntas, na praça: eu, joyce malta, lissandra guimarães, clarissa alcantara, flavia fantini, debora fantini, hozana passos, luana tolentino, romênia reis, raquel medeiros, leticia castilho, thálita mota, kristoff silva, áurea carolina, scheylla bacelar... 
ah, foi bom. ver uma mulher que passou por ali, parar e dançar conosco, porque "já apanhou muito e agora não apanha mais. nunca mais".foi bom dialogar com a cidade a partir do corpo e do giz. misturar, à minha dança, e à dança das outras, palavras que falavam da gente e da situação contra a qual lutamos diariamente e em razão da qual estávamos ali.
daí, a partir desse dia, uma de nós, letícia castilho falou: não seria ótimo se a gente dançasse toda semana, até as pessoas começarem a falar "ó, ali estão aquelas mulheres que dançam contra a violência..."?

achei essa idéia tão linda. levei tão a sério, que resolvi propor um grupo no facebook para organizarmos essa ação. senão semanal, como se mostrou inviável, pelo menos mensal. e uma questão para mim era: como torná-la mais marcante, inclusive para nós?
no mês seguinte era março e resolvemos fazer a ação no dia internacional das mulheres. por um lado, foi muito interessante a integração à marcha e desenvolvê-la junto com o obscena. por outro, a ação, em si, perdeu a força, diluiu-se em uma massa que, por sua vez - o que foi ótimo! - ganhou força nessa junção coletiva, como também ganhou força os corpos que traziam representações individuais - do véu muçulmano ao corpo machucado - em performances que ocorriam a todo momento.

foto: Matheus Silva


agora, em abril, optamos em dançar na praça da rodoviária e dancei com o corpo escrito, dancei com várias palavras de ordem em meu corpo, desde "não é não" e "meu corpo, minhas regras" até "dançar é uma revolução", ou com dados concretos, como aquele da chamada: "1 a cada 3 mulheres será agredida" ou a estatística brasileira, "10 mulheres mortas por dia". e, para mim, a ação, feita assim, foi bem reveladora!

 Foto: Nina Caetano


a dança se revelando quando, com a escrita no corpo, as palavras também sugeriam movimentos, para serem vistas. para serem lidas. foi uma experiência bem interessante, principalmente ao pensar que ela vem de uma trajetória de ações investigadas dentro do obscena, de experimentos que lidam com aquilo que tenho chamado de escrita performada: a escrita no calor da ação performativa.
vejo isso desde baby dolls, com as primeiras escritas a giz no chão (na verdade, vejo antes: desde a vitrine dos corpos prostituídos, proposta por marcelo rocco, ainda no teatro marília, em 2008) até espaço disponível, anuncie aqui, intervenção realizada pelo obscena no evento corpolítico, em março de 2013, passando pelas mulheres painel, experimentadas em diálogo por lissandra guimarães e por mim junto a outras mulheres, como, por exemplo, na ação performática 25 de novembro... nela, é evidente também os rastros de ações lúdicas, como a já citada festa no metrô...
por outro lado, vem se intensificando, cada vez mais, a relação com a dança. dentro do processo das ondas, um material que vinha me instigando dizia respeito à jinny, talvez a personagem mais corpo de virginia, e eu já havia até brincado com a idéia de uma dança de palavras e de tecer um tango com elas - clarissa já havia até feito uma primeira versão musicada disso... e, recentemente, fred caiafa propôs trabalhar também a partir da dança, do que ele está chamando de uma dança de afetações.
com o interesse cada vez mais nítido de levar as ondas para as ruas, resolvemos, então, eu e ele, sair - e para isso chamamos joyce, em primeiro lugar, para dialogar conosco a partir de seus materiais sonoros e performáticos, e também todos os demais, incluindo clóvis, que não está nas ondas, mas está - para uma deriva dançada pelo centro da cidade. essa deriva tinha o intuito de traçar um mapa psico-geográfico-corporal, uma corpografia das luzes e sombras da cidade.
fomos eu, fred, joyce, clóvis e leandro. nos encontramos às sete, na praça da estação, e rumamos em direção ao viaduto de santa tereza, pela andradas. joyce, com o gravador, captava nossas vozes e os sons do centro nervoso. nós todos nos lançamos em distintas experiências.
eu parti em busca da sombra. e como era múltipla e tênue! como a cidade é iluminada! ou, como disse clóvis, ensolarada... além da sombra, uma frase me guiava: estou coberta por carne quente. como as palavras escritas no corpo, no outro dia, essas palavras inscritas na pele guiavam meu movimento. em diálogo com as sombras. e com as luzes que passavam.
quando chegamos embaixo do viaduto de santa tereza, a configuração do trabalho se alterou. se antes, o movimento era de ordem bem individual, ali ganhou uma dimensão mais coletiva. trabalhávamos em um mesmo fluxo de ações. recuperamos movimentos já improvisados nas ondas. ensaiamos dançar com a arquitetura e com os passantes. ações surgiam fugazes, como o prolongado aplauso aos usuários de um ônibus que parara no sinal fechado.
da próxima vez, quero experimentar o giz.


p.s. a primeira foto, com filtro roxo, é de davi madureira victral.

segunda-feira, abril 22, 2013

Maneiras de Fazer - TRANSEUNTES : ESTUDOS SOBRE PERFORMANCE (UFSJ)

MANEIRAS DE FAZER pretende ser um espaço de conversas e trocas com grupos de pesquisa cênico-performática. Desejo de ampliar a rede artística. A estreia é com o grupo de pesquisa TRANSEUNTES da Universidade Federal de São João/MG. Fiz o convite ao pesquisador e professor do Curso de Teatro da Universidade, Marcelo Rocco, que também participou por muitos anos do Obscena.

Para saber mais: www.transeuntesperformance. blogspot.com.br

A seguir publico nossa conversa:

 
1- Como é realizar ações cênico-performáticas numa cidade histórica?Como ela influencia na criação de ações? O espaço também performaria? Pergunto isso porque penso que a própria arquitetura histórica já se apresenta como uma intervenção na paisagem urbana.
Esta questão é muito interessante, uma vez que a própria paisagem torna-se cenário para a ação. Estamos, neste momento criando uma ação sobre “vitrinismo nas lojas”, e a arquitetura de SJ nos ajudou facilmente para esta ação, para a construção do Luxo. No entanto, como cidade histórica, os cidadãos e os turistas, encaram certas ações como "teatrais", no sentido convencional e com aplausos no final, nos forçando, em muitos momentos, a trabalhar em outros locais que não carregam a "carga" histórica na paisagem urbana. às vezes, fazemos ações espalhadas pela cidade para causar um estranhamento ao transeunte, não ficando tão clara a noção de performance.

2- Quais têm sido os procedimentos de pesquisa do grupo? Como vocês funcionam? Onde se encontram? Quantas vezes por semana?

Nos encontramos duas vezes por semana, seria muito interessante você ter facebook (talvez não tenha por razões políticas), pois te colocaria no nosso grupo, lá postamos diariamente nossas ações, fotos, etc. Inclusive, meu projeto de Doutorado paira sobre a diferenciação entre cidade histórica e metropolitana quanto às ações performáticas, vou descrever abaixo alguns procedimentos do grupo, aliás, muito influenciado pelo Obscena: 

(esta foi a primeira ação do grupo em 2012)
Procedimento “Corpo-espera”
 
Descrição do procedimento: Performers com vestes coloridas e partes dos corpos pintados ficam imóveis em meio ao centro de São João Del Rei. Todos os performers aguardam algo. Mas, o que esperam? 
 
Diálogo com o público: O teatro ainda pode incomodar? Esta pergunta foi o mote inicial da pesquisa que gerou o procedimento em questão. Em meio às amplas conceituações relativas à Performance Artística, ou Performing Art, estudadas pelo grupo, houve certos denominadores em comum que interessavam a este como objeto de estudo, tais como: O incômodo e a provocação que a performance pode gerar. Este procedimento artístico-performático provocou: “Então, corpos parados são corpos artísticos? Isto é arte? Falta do que fazer. Bando de loucos” (extraído das anotações do caderno do entrevistado). Estas foram algumas das definições ouvidas pelos performers e pelo autor do presente texto durante a apresentação de “Corpo-Espera”, pois os transeuntes necessitavam enquadrar aquilo que viam em algo aceitável ao olho nu, ou seja, algo que fosse inserido na padronização comum que usualmente damos às pessoas, objetos e tudo mais que alcança aos olhos. O caos não pode perdurar. Ele deve se ordenar, se encerrar em um ponto normatizado para o “bem-viver”. 
 
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os corpos parados em meio ao calçadão interrompiam, literalmente, o transeunte, pois este precisava mudar o seu percurso, caso desejasse dar continuidade aos seus passos, já que os performers estavam próximos uns dos outros e, de certa forma, atrapalhando a trajetória cotidiana alheia. Ao ser interrompido por “Corpo-Espera”, o espectador pôde decidir dialogar com a obra, ou continuar o seu caminho. Logo, as intervenções são capazes de deformar as linhas que definem as cidades, exigindo um novo olhar dos transeuntes. Desta maneira, entende-se que a cena contemporânea intervindo nas ruas, apropria-se de interações face a face com os espectadores. Esta ótica possibilita uma leitura que dilui os limites da teatralidade para assimilar ao espectador um caráter real.

Sendo assim, alguns passantes se permitiam ver, outros riam, e outros tentavam entender, dialogar, perceber o entorno. O cotidiano deixou de ser, momentaneamente, apenas local de passagem, passando a ser visto sob outra ótica. As cores reluzentes dos performers atacavam, invadiam as ruas. Uma performer não se conteve em dar cor apenas às suas roupas, banhando o seu corpo com muita tinta. Tais cores ultrapassaram a performer que estava em um estado extra-cotidiano. A “espera” dos performers contaminava muitos espectadores que, por vez, resolveram esperar também, pois algo poderia acontecer: “Vai ser apresentação teatral?” indagou uma senhora. “O que vai acontecer aqui?” – Perguntou uma mulher curiosa enquanto estava de mãos dadas com a sua filha, parecendo sair de uma escola formal (devido ao uniforme usado pela criança). Os performers apenas esperavam, gerando mais dúvidas nos cidadãos passantes. O lugar da espera era subjetivo, pois os performers aguardavam múltiplos acontecimentos. Em um relato posterior à performance, os atores explanaram, um a um, sobre os motivos individuais criados a fim de darem motivação à espera: esperando o ônibus, esperando um homem, esperando a morte, esperando o celular tocar, esperando a chuva que não vem, esperando um homem sair do caminho. Portanto, o procedimento “Corpo-espera” propôs uma vivência com o espectador transeunte através dos corpos dos performers, atuando fisicamente próximo ao espectador, atingindo o mesmo, não pelo verbo, mas pela percepção dos sentidos. Com isto, as imagens dos corpos parados foram geradoras de sensações responsáveis para manter o espectador próximo, em contato com o procedimento, em um jogo que também possibilitava o afastamento, o desinteresse, e o devaneio

  (este abaixo foi o segundo procedimento, ATUALMENTE ESTAMOS TRABALHANDO COM A TEMÁTICA "CONSUMO" ABANDONAMOS UM POUCO A "MULHER") 
Procedimento “Mulher-Utensílio” (esta proposta foi feita pelas alunas – mulheres, influenciadas por ongs feministas e sugeri vários textos do Obscena)

Descrição do procedimento: Donas de casa realizando suas atividades diárias em frente ao centro de compras. A ideia da repetição mecanizada das tarefas cotidianas. A submissão dos corpos femininos frente aos corpos masculinos. O lugar da mulher: A mulher que acopla o lar doce lar, a mulher que passa o ferro, passa a vida, passando a roupa. A mulher de ferro. A mulher que se ferra. A mulher que limpa e sorri. A mulher que apanha e sorri. A mulher que dá e sorri. Coisa de mulher. Mulher coisa. A mulher moderna que trabalha fora, que faz o seu varal. A mulher que não gosta do que vê no espelho. 
 
Diálogo com o público: As atrizes performers posicionavam-se em frente à loja de eletrodomésticos denominada “Ricardo Eletro” (região central de São João Del Rei). Cada mulher em seu nicho dava início às atividades cotidianas das donas de casa: lavar, cozinhar, varrer, bordar, depilar-se, entre outras atividades escolhidas previamente pelas performers. A ideia inicial era causar um estranhamento nos espectadores frente à repetição das ações, transformando as figuras femininas em “seres coisificados”, mecanizados pelo dia a dia. Tal ideia pareceu funcionar. A rua como lugar vivo, possuía um conjunto de signos que não parava de circular: Promoções, compras e vendas, anúncios, barulho ininterrupto, etc. Tal vivacidade colaborava com as características de parte daquela cena que, por sua vez, buscava peculiaridades flexíveis e multifacetadas, dando um sentido aberto à proposta, na comunhão de vozes com o espectador. Sendo assim, rapidamente, os transeuntes paravam ao redor da performance, curiosos pelo decorrer das cenas abertas. Naquele dia, a região central estava com um grande fluxo de cidadãos passantes, devido ao “dia das mães”, que proporcionava grande circulação de pessoas e produtos. Os funcionários de diversas lojas saíam para prestigiar (ou desprestigiar) o procedimento. Em frente às lojas em que a performance decorria, um funcionário resolveu aumentar o volume musical de um aparelho de som, cujas músicas eram de origem eletrônica, ampliando a atmosfera perturbadora e caótica das cenas que se seguiam. Os eletrodomésticos em frente às lojas, bem como os preços promocionais dos produtos, auxiliaram na construção cenográfica da “Mulher-Utensílio”, propondo a arquitetura da cidade como lócus privilegiado do fazer artístico. Tal arquitetura proporcionou o acolhimento do espectador transeunte, em uma articulação entre os cenários oferecidos pela cidade e o procedimento em questão, buscando criar novas molduras espaciais no centro urbano, objetivando assim, a troca de experiências entre a cena e o espectador, na fala de Grotowski O teatro é tudo que ocorre entre o espectador e o ator (GROTOWSKI, Jerzi. Em Busca de um teatro pobre). As ações totalmente atípicas para um espaço público, como os fazeres domésticos, causaram um estranhamento ainda maior com a entrada dos performers masculinos a fim de submeterem as mulheres em situações vexatórias, colocando-as em posições domesticadas, em um intenso jogo das questões privadas e públicas, forçando uma reação dos transeuntes, formatando, assim uma resposta dos mesmos. Frente às constantes humilhações em que as performers se faziam passar, alguns espectadores tentaram um contato corporal com as artistas, visando entender, ainda que sob o olhar conteudista, aquela cena. Porém, não obtiveram respostas conclusivas por parte das performers. 

Durante as repetições das ações performáticas, a maioria dos transeuntes ficava ao redor da cena, ora acompanhando com olhares, ora caminhando na mesma direção, provavelmente instigados pelo desfecho daquela ação. As atrizes provocavam os olhares masculinos, desejavam ser vistas, eram expostas às situações de humilhação. Algumas pessoas riam, outras ficavam um pouco irritadas com a interrupção abrupta do cotidiano. Restava então a pergunta: Por que a maioria apenas observava? Faltava mais força à performance? Ou os transeuntes entendiam que aquilo era teatral e, com isto, colocavam-se na posição de contempladores? Estas perguntas são investigadas até hoje pelo grupo em constante processo de descoberta, não obtendo uma resposta conclusiva, mas sim, analítica.


3- Como vocês pensam a aproximação entre artes cênicas e artes visuais/urbanas? Seriam práticas híbridas? Ainda estaríamos de alguma forma fazendo teatro na rua ou desejamos outras formas de  provocações e interrupções? Como escapar de ações "espetaculares" que facilmente seriam chamadas de "isso é teatro"? Ou tal questão não importa para a pesquisa de vocês?

Pode-se dizer que a rua exige uma corporeidade intensiva por parte dos performers, além de múltiplas práticas, que posso afirmar serem híbridas, mesmo porque, no grupo, há arquitetos, jornalistas, cenógrafos, ou seja, o grupo já começou extrapolando o caráter teatral. A experiência de expor o próprio corpo no espaço público, através de novas relações artísticas, explicita o campo de aproximação física entre a obra e a quem ela se refere.



terça-feira, abril 09, 2013

AQUI PERFORMAMOS COM OS MORTOS

Aqui Performamos com os Mortos

Em Ouro Preto, redolente, vaga um remoto estar - presente”.
Carlos Drummond de Andrade

Tudo é intervenção!

O Obscena propôs uma série de intervenções cênico-performáticas como parte da programação do Simpósio Internacional Corpolítico, ocorrido em Ouro Preto entre 11 e 15 de Março de 2013.
Simultaneamente aconteceram cinco ações poético-urbanas: “Salve Padilha, cheia de Graça” (que começou na Ponte Marília de Dirceu e terminou na Igreja do Rosário); “Espaço Disponível: Anuncie Aqui” (que ocupou a Feira de Artesanato perto da Igreja de São Francisco de Assis e vários lugares do centro da cidade); “Infravermelho” (também realizada na Ponte Marília de Dirceu) e “O Espaço do Silêncio” (que juntamente com “O Suicidado”), que se instalou na Praça Tiradentes.

O pesquisador e performer Matheus Silva afirmou que criamos um “mar vermelho” que invadiu a cidade barroca. Sim, nossas presenças afetaram o cotidiano de Ouro Preto. Mas também acredito que a cidade performou. Cidade misteriosa, de pura teatralidade, misto de religião e espetáculo, paisagem habitada por moradores, turistas, estudantes, heróis e espíritos, espaço vertiginoso no qual o passado e a História respiram juntos.

Nas palavras de Alexander Freitas (2009:146): “o espaço arquitetônico de Ouro Preto, metaforicamente, como a maré cheia, preside uma invasão – uma imposição – da imagética setenticista ao presente”. Uma forte intervenção urbana.

E penso que nossas ações, no presente, de alguma forma, atualizaram o passado. Foram invadidas por fatos históricos e pelo imaginário coletivo existente em Ouro Preto. Os espaços interviram sobre nossos trabalhos artísticos numa tessitura de tramas da memória. As igrejas e o som dos sinos, o silêncio dos cemitérios, as ladeiras e seus candelabros, a arte sacra, tudo é intervenção.

Fiquei pensando: o que seria performar num espaço teatralizado que grita suas cores e formas? Que espetaculariza sua História? Lugar que cotidianamente acontece uma performance dos moradores e personagens de rua? Acredito que seja possível dialogar com esses espaços e suas simbologias. E mais: praticá-los de forma liminar e fronteiriça. Duplicar seus usos e sentidos. Nossas ações e manifestações cênicas “transbordam as taxonomias e configuram-se como corpos mestiços a partir dos entrecruzamentos e hibridações entre os dispositivos das artes cênicas e visuais” (DIÉGUEZ, 2011:51), elementos preponderantes na cultura barroca. Corpos políticos por entrecruzarem tempos e espaços. Abordarei tal aspecto no tópico a seguir.

Espaços Entrecruzados: ATUALIZE AQUI

A cruz é a síntese de dois espaços de poder da arquitetura barroca: a igreja e os cemitérios (FREITAS, 2009). A cruz também é o encontro de duas linhas temporais: de um momento que segue seu fluxo no instante se deparando com um momento já vivido. Morte e vida. Acontecimento e acontecido. Nesse “entre-lugar”, nós obscênicos, acontecemos. 
 

Fotos de Luciane Trevisan

A Padilha de Erica Vilhena se metamorfoseou numa espécie de santa, caminhando descalça como um ato de fé e sacrifício, e depositando oferendas (terços, conchas e pétalas de rosa) nas portas das igrejas que emprestam seus nomes em homenagem às mártires católicas. Um corpo em PROCISSÃO. A cada estação, cada parada, uma ação ritual. Uma Pomba-Gira recatada e bem comportada desfilou pelas ruas de Ouro Preto e a sensação verbalizada pela performer, era de estar sendo vigiada o tempo todo. A iconografia barroca nos revelava que a cidade tem olhos. Muito diferente de uma caminhada perigosa, feita por uma Padilha atrevida, numa outra experimentação ocorrida no baixo centro de Belo Horizonte, nas ladeiras ouro-pretanas sentimos “pulular os olhos-da-cidade, que aqui, são explicitamente metáforas dos olhos-de-Deus” (FREITAS, 2009: 200).

Santa Efigênia, Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora do Pilar ou Marília de Dirceu, entre outras figuras femininas, se atualizaram no corpo peregrino da performer. Inclusive, Erica distribuiu suspiros na conhecida “Ponte dos Suspiros”, no bairro Antônio Dias, local no qual se conta que Marília de Dirceu se encontrava com seu amado Tomás Antônio Gonzaga. Nessa gestualidade performática cruza-se uma composição corporal, espacial e temporal. Reencontro de arquiteturas. Presentificação de um tempo que ainda dura.

Da mesma forma que a questão do suicídio e extermínio dos nossos índios guaranis kaiowás (tratada nos trabalhos “Espaço do Silêncio” e “O Suicidado”) voltou a ser denunciada na Praça central, local no qual Tiradentes foi assassinado. Nina Caetano e suas pequenas cruzes, quase uma santa colocada num altar branco que aos poucos se mancha de vermelho. Leandro Acácio, num esforço de resistência física e psicológica, a sustentar um pedaço de tronco seco corporificando a imagem de um crucificado. O silêncio que se converte em discurso. Leandro e seu “corpo-estátua”. Ambos os trabalhos nos olham, criando quase um constrangimento.

Além da possibilidade de se erguer publicamente um monumento, ainda que temporário (em memória da injustiça cometida contra os expatriados indígenas) sob outro “palco” permanente, a praça. Na ocupação espacial desses dois trabalhos, temos uma teatralidade e performatividade em estado de permanente fricção, atravessadas por narrativas históricas (logo ficcionais) e irrupções do real.

As imagens de uma amordaçada e um enforcado, seus corpos quase imóveis e se torna impossível não se lembrar da morte do famoso inconfidente Tiradentes. Corpos rendidos. Re-ligação de personagens rebelados em tempos diferenciados. Os turistas- espectadores que fotografavam aquele acontecimento cênico registravam o espaço e seu duplo, a sobreposição de tempos, fatos, atos e ventos.

Em “Infravermelho”, mais uma mulher, agora cega, carregando maçãs do amor e tateando o corpo de velhas pedras e muros da cidade. Marcelle Louzada, impossibilitada de ver o que se passava e ao mesmo tempo se oferecendo como um corpo em plena visualidade poética. Um quadro vivo de pintura impressionista. Ela se arrastava, tropeçava, buscava pontos de apoio e também parecia ser uma santa fugitiva de algum altar. Em outros momentos era como ter a visão de um “corpo fantasma” como uma daquelas almas perdidas que rondam o fabulário ouro-pretano. Os olhos tampados, como que furados e vazados, me remetiam à ideia de um corpo torturado.

Em “Espaço Disponível: Anuncie Aqui” (com Matheus Silva, Joyce Malta, Lissandra Guimarães, Flávia Fantini e Sabrina Andrade), a provocação ao comércio local, às feiras, à herança dos exploradores. Nem tudo reluz e nem tudo é ouro. Ainda haveria espaços possíveis em Ouro Preto para se divulgar a venda de alguma coisa? O turismo alimenta a economia e tudo é propaganda, disputa, indicação de hotel e restaurante; se paga para se visitar as igrejas e museus. Até quando seduzidos e viciados pela História?

Além da escolha nessa ação, do corpo como suporte para pequenos textos compondo um cartaz. Também uma possível alusão às placas das repúblicas estudantis anexadas aos corpos dos universitários. Outra aproximação. Anuncie aqui: seu poder, o peso da tradição, o machismo secular, sua perversidade. Anuncie aqui: “Bixo”, lixo, nicho de corpos domesticados. Anuncie aqui a humilhação e a violência, feito as placas com os valores de compra dos negros africanos contrabandeados para servirem de escravos para seus senhores europeus.

No conjunto desta “aparição-presentação” artística tudo dialoga com esse “mar vermelho”: sangue, dor, fé, luxo, ostentação, sobrenatural, espaço e poder.

Uma vez alguém proclamou: “Aqui em Ouro Preto andamos sobre os mortos”. Naquela tarde de quinta-feira, 14 de Março, poderíamos dizer: Aqui performamos com eles. Uma experiência fora do tempo. Eles reviveram através de nossos trabalhos. Pois estão vivos nos espaços que escolhemos ocupar.

Espaços em Branco

Caí numa armadilha? Estarei de alguma forma historicizando uma vivência coletiva numa visão pessoal do que fizemos? Tudo o que aqui está escrito já é passado. Foi-se. É uma cruz. Tudo se afoga com aquele “mar vermelho”: referências, identidades, calendários e contextos.

Que venha o desconhecido e o imprevisível!

Agora desejo olhar para nossas pesquisas como corpos com tatuagens de rena, efêmeras e livres para novos lugares e encontros. Podendo ser bicho, gente, coisa, cor, onda, linha, vôo, nada. Anúncios impossíveis.

Espaços em branco: PERFORME AQUI!

Referências:

DIÉGUEZ, Ileana. Cenários Liminares: teatralidades, performances e política. Tradução de Luis Alberto Alonso e Angela Reis. Uberlândia: EDUFU, 2011.

FREITAS, Alexander. Imagens da Memória Barroca de Ouro Preto: o espaço barroco como educador do imaginário ouro-pretano. Doutorado. Faculdade de Educação. São Paulo: USP, 2009. 308 p.